Por: Amanda Botareli
Foto: Arquivo pessoal
Você lembra quando aprendeu a fazer um laço com o cadarço do tênis? E quando teve certeza de que ele estava apertado o suficiente para não soltar?
Quando somos crianças, são nossos cuidadores que fazem isso por nós, são eles que mantêm os laços bem presos, para que não desamarrem e ocorra algum acidente, para que permaneçam fortes e nos tragam segurança. Com o tempo, adquirimos independência para fazermos nossos próprios laços e, conforme os anos vão se passando, vamos aprimorando essa habilidade. Existem aqueles laços que muitas vezes temos dificuldade de desfazer, porque foi feito um nó tão forte a ponto de suportar todas as situações adversas que ocorrem ao seu redor, também há aqueles laços mais frouxos, mas que permanecem com seu formato ainda assim, e há outros que temos há tanto tempo e a sua força permanece a mesma, é surpreendente. Uns de cetim, outros de algodão ou de lã, existem tantas formas e formatos. E se ainda não me compreendeu, não estou falando apenas de cadarço.
Existem laços afetivos de diferentes formas e frequências, e todos à sua maneira se fazem necessários, mas você pode acabar me perguntando o porquê. É como questionar por que precisar de laços nos tênis, se posso caminhar descalço. E eu te respondo que, por vezes, são esses afetos que serão, assim como o tênis, sua proteção, que te trarão bem-estar em solos desconhecidos ou em terrenos desgastantes, que te farão caminhar cada vez mais longe. E é esse o papel da amizade.

A amizade é uma importante fonte de bem-estar.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Harvard, intitulada de “The Good Life” e que perdurou 80 anos, constatou que um dos elementos que mais influencia o nível de saúde das pessoas não está relacionado à genética ou à alimentação e aos hábitos do dia a dia, mas, sim, às relações interpessoais. Em entrevista ao Daily Mail, o psiquiatra Robert J. Waldinger, que supervisionou o estudo, afirmou que “bons relacionamentos não apenas nos fazem felizes ao longo da vida, mas mantêm o nosso corpo e o nosso cérebro mais saudáveis”.
O bem-estar não é algo alcançável em apenas um dado momento, é uma construção que perpassa situações adversas, e ter com quem dividir períodos de angústia, pedir conselhos ou ainda ter com quem se distrair em um dia considerado ruim contribui para a qualidade de vida do ser humano. E, assim como comprovou o estudo, são essas companhias que podem ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, por exemplo.

Os laços nos influenciam e fazem com que conheçamos mais sobre nós mesmos.
O segredo da amizade não está em manter-se rodeado de pessoas ou na quantidade de pessoas que o cerca, mas, sim, na qualidade e na identificação que existe com quem escolheu dividir suas conquistas e frustrações. E essas identificações acontecem durante a vida e permanecem diante da circunstância e do bem-estar que carregam.
Relacionamos a palavra “influência” muitas vezes a uma circunstância negativa, porém existe uma dualidade em seu significado. Há comprovações, por exemplo, de que conversar sobre campanhas antitabagismo reduz o consumo de cigarros por parte dos fumantes, possivelmente porque esse tipo de conversa traz informações relevantes sobre o estilo de vida dessas pessoas. Também há diversos exemplos, possivelmente ao seu redor, de pessoas que começaram a praticar uma atividade física por influência de um amigo e assim se descobriram em algum esporte.
Conversas na mesa de um bar ou no intervalo do trabalho podem resultar em diversas reflexões sobre si mesmo, mas lembre-se, tanto validações quanto desaprovações devem ocorrer de forma saudável. Bons amigos farão você se sentir amado, compreendido e respeitado, independentemente da circunstância.

Auxilia no amadurecimento emocional e pessoal
Crianças começam a aprender valores, como dividir objetos e alimentos ou ainda respeitar o espaço do outro, desde muito pequenas, inicialmente em casa e posteriormente na creche, no parquinho, na escola, com as relações interpessoais. E os valores adquiridos na coletividade persistem durante toda a vida, entre eles, a empatia, a gratidão, o respeito e o senso comum, etc.
Ter um amigo na vida adulta é uma troca constante de opiniões e experiências e, consequentemente, é também compreender mais sobre o sentimento e a realidade do outro. É aprender, muitas vezes, a reconhecer e a admirar diferenças, ter compaixão com o sofrimento alheio e comunicar-se cada vez mais adequadamente, expondo e assumindo as suas próprias emoções e limitações e ouvindo as mesmas confissões. E a soma de todos esses fatores, consequentemente, influencia e faz parte de processo de amadurecimento que acontece ao longo da vida, a partir de experiências e situações que exigem nossa disponibilidade, investimento e crescimento.
Portanto apertem seus laços e vivenciem essa bela caminhada!
*Psicóloga da Clínica da Família Cassems



Você precisa fazer login para comentar.