Annelise e seus Lenços de Luz,Uma História de Superação e Fé

Annelise e seus Lenços de Luz, Uma História de Superação e Fé
Em 2018, Annelise perdeu sua irmã gêmea univitelina para o câncer. Exatamente três anos mais tarde, perdeu o irmão em um acidente. Mergulhada na dor, mas com uma fé como consoladora, Annelise encontrou na caridade a força para homenagear e honrar a memória dos irmãos.
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Natural de Ponta Porã, Annelise Lopes Peralta Herradon e sua família vieram para Campo Grande quando ela e sua irmã gêmea univitelina, Cristiane, ainda eram pequenas meninas de quatro anos. Na Capital, cresceram, fizeram amigos, estudaram, criaram carreiras e famílias. Porém, elas também dividiram o momento mais difícil para a família até então, quando a irmã foi diagnosticada com leucemia mieloide aguda – Grau 4 (LMA).

Antes de nos contar os momentos de dor, Annelise lembra quanto ela e a irmã eram unidas e felizes. Sempre juntas, as duas vivenciaram as delícias da infância e as descobertas da adolescência, compartilharam momentos de cumplicidade, travessuras e diversão como nas festas em que usavam roupas iguais “só para confundir as pessoas”, relembra Annelise, que continua contando que fofoca era a apaziguadora das brigas.

“Isso tudo era maravilhoso e, mesmo brigando de vez em quando, falávamos uma para a outra: ‘Se não pedir desculpas, não conto a fofoca’. E foi assim até o último momento dela, um amor além dessa vida”.

A notícia da doença da irmã chegou de um dia para o outro. As duas almoçavam juntas todo fim de semana e foi em um dia desses que Cristiane contou a Annelise que não estava bem e que iria procurar um médico. A partir daí, tudo foi muito rápido e, no primeiro momento, o desespero foi grande e a descrença mais forte que a confiança.

“Na verdade, ela já vinha apresentando cansaço e falta de ar, mas associava à correria do dia a dia, até que ela foi hospitalizada e constataram uma anemia forte. Ela tomou uma medicação e pediram para que viesse no outro dia para conversar com um hematologista. Foi a partir desse momento que meu mundo desabou. Meu cunhado me ligou pedindo para que eu fosse para o hospital porque o médico iria conversar conosco. Quando cheguei, ela me olhou e falou: ‘Nê, estou com leucemia’, e começou a chorar. Eu me segurei, parecia que tinha um escudo, uma proteção, não sei explicar, mas fiquei firme. Eu abracei a minha irmã e falei: ‘Somos gêmeas e vai ficar tudo bem. Eu vou te salvar. Você é forte e corajosa!’. Eu saí do quarto, porque me chamaram, e eu desabei. Não sabia o que falar nem o que fazer, eu só pensava ‘e agora?’. Na hora, eu não consegui ser positiva e pensar que estava tudo bem, não. Liguei para o meu irmão e ele ficou mudo, sem ação. Mas, logo estava comigo, ao meu lado”.

Quem lida com uma doença como a leucemia sabe que depois do baque do diagnóstico vem outra fase, nem um pouco agradável, que é a busca por doadores compatíveis. Nesse caso, o tempo é fator determinante, para o bem ou para o mal. Annelise não esquece do paradoxo entre a urgência da fala do médico e tranquilidade da irmã.

“Nos levaram para uma sala, eu e meu cunhado, e o médico foi bem claro: ‘Corram contra o tempo’. Eu não conseguia entender o que seria isso e me perguntei qual a chance de conseguirmos. Ele explicou que os exames não condiziam com o que via lá no quarto, com uma Cris fazendo palhaçada, rindo e, ao mesmo tempo, muito preocupada. O médico então completou: ‘Peçam doações de sangue e plaquetas’. Foi aí que parei Campo Grande e, no desespero, com medo, fiz um pedido na mídia e com isso espalhou-se para muita gente, graças a Deus”.

Com a ajuda dos amigos e familiares, Annelise organizou uma grande campanha de arrecadação de sangue e plaquetas. Nesse mesmo período, Cristiane começou o tratamento com quimioterapia, o que deixou Annelise apreensiva e, então, os dias se passaram rapidamente, divididos entre esperança e sustos.

“As doações de sangue continuavam e nossa família acampou no hospital para ela sentir a nossa energia. Os amigos todos estavam lá, todos os dias. Fizemos a maior campanha de doação de sangue, em 30 anos do Hemosul. Mesmo em um momento difícil, eu sentia muito orgulho dela, que salvou vidas com essas doações sendo espalhadas pelos hospitais. No terceiro ou quarto dia, não lembro ao certo, o médico nos chamou e falou que iniciariam a medicação com a quimioterapia. Nesse momento, eu desabei. Não entendia por que tão cedo, mas o médico não tinha opções. Ou fazia ou fazia. No sexto dia, ela começou a passar muito mal, com falta de ar, e eu com medo de ela sangrar por causa da queda das plaquetas. Decidiram levá-la para a UTI e cada dia era uma esperança e um susto. Eu a visitava todos os dias, conversava e arrumava ela para deixá-la bem linda”.

Entre o diagnóstico de leucemia e o falecimento de Cristiane, foram 26 dias. Na parte final desses dias, houve momentos de grande esperança, que Annelise relata com detalhes, como se tudo tivesse acontecido ontem.

“No dia 20 de junho de 2018, o médico nos avisou que iria viajar, mas que voltaria no dia 22 e que estávamos liberados para irmos ao hospital, pois as plaquetas da minha irmã haviam subido. Meu Deus, quanta felicidade sentimos. Fui visitá-la e, feliz, falei: ‘Amanhã você sai daqui pra gente fofocar’. Nesse dia, senti uma força muito grande, um fogo no meu peito, parece que eu a vi me olhando e perguntei: ‘Por que você está me olhando assim, minha irmã? Senti uma força, um sopro para dentro do meu coração’. Saí de perto e desabei. Nunca tinha chorado no leito dela. Então fui para casa”.

Em meio à realização de campanhas de doações de sangue e de medula óssea, a primeira atitude da família de Cristiane foi buscar um doador compatível entre os familiares. Infelizmente, o resultado da compatibilidade veio tarde demais.

“A cada agulhada, eu ficava feliz porque pensava: ‘Vou salvar minha metade e a gente vai ser feliz novamente. Essa tempestade vai passar’. Meu irmão me acompanhava e também fazia os exames. Por mais que estávamos tristes, meu irmão deixava o momento leve. Ele fazia graça e falava que depois a gente ia contar as coisas para ela, sempre com muita esperança. O resultado saiu depois do falecimento da Cris, e eu e meu irmão éramos compatíveis. Eu sofria com isso, pois vinha na cabeça o porquê de não ter conseguido salvá-la, por que não deu tempo? Por que está acontecendo isso? São muitos porquês. Minha irmã ficou internada durante 26 dias. Ela partiu 26 dias depois do diagnóstico”.

Além de saudades, Cristiane deixou três filhos que logo trouxeram netos e, aos poucos, a vida de Annelise foi se completando e a esperança renascendo.

“Eu fiquei ali, pensando na gente, nos filhos dela, que hoje são meus também, pois sou madrinha dos três. Após dois meses da sua morte, uma das filhas dela ficou grávida e logo depois a outra filha também, foi quando me vi mãe delas. Não que eu iria substituir minha irmã. Jamais. Mas eu iria estar ali em todos os momentos. Os três filhos dela tinham perdido o pai havia nove meses e era tudo muito difícil e triste, afinal, perderam pai e mãe. Minha irmã era casada pela segunda vez, com uma pessoa maravilhosa, que cuidou do caçula e era um paizão. As meninas já estavam casadas e, quando os netos vieram, nós renascemos. Vejo minha irmã em cada um deles e assim continuamos até hoje, juntos como sempre fomos, um cuidando do outro. Nossos netinhos são a nossa alegria e eu me vi mãe de cinco filhos e vó de três”.

Só quem perdeu algum ente querido sabe o vazio e o pesar para os que ficam. Por mais que inúmeras mensagens de condolência, amor e solidariedade ajudem muito em situação de luto, é esperado e normal sentirmos medo, tristeza, raiva e até culpa.

Com Annelise não foi diferente, porém, pouco tempo após o falecimento da irmã uma ligação deu novos rumos aos seus sentimentos e um sentido diferente para a sua vida, incentivando a criação do projeto Lenços de Luz, formado por um grupo de amigas que a ajudaram emocionalmente formando uma rede de apoio para enfrentar a dor da perda.

“Fui ao Hospital Regional, onde ela ajudou a levar esperança e luz para muitas pessoas por meio das doações de sangue feitas em nome dela. Vi um cabide na sala da quimioterapia e perguntei para que servia aquele cabide vazio, naquele lugar. A moça explicou que recebiam algumas doações de lenços de vez em quando, aí eu falei: ‘Vou te ajudar!’. Conversei com algumas amigas minhas e da minha irmã, amigas em comum, e formei o projeto Lenços de Luz. Achei que ficaria só naquele período, mas não. O projeto foi crescendo, as pessoas foram nos procurando e fomos nos envolvendo mais e mais. Nos apresentamos nos hospitais e fomos bem-acolhidas. Hoje, temos pontos de coletas pela cidade”.

O projeto Lenços de Luz visita os maiores hospitais da Capital, incluindo o Hospital Cassems Campo Grande, levando beleza, autoestima e solidariedade a pacientes oncológicas. Contudo, Annelise não está nem perto de enxergar sua missão finalizada. Durante suas andanças pelos hospitais, ela percebeu que muitas mulheres que moram no interior têm de esperar seus procedimentos sem conforto algum. Daí nasceu um novo sonho.

“Lá na frente, no futuro, meu sonho é montar uma linda casa de apoio para as pessoas que fazem tratamento oncológico aqui em Campo Grande, mas que vêm do interior para fazer a quimioterapia e as consultas. Será uma casa para que elas tenham dignidade ao esperar, para que todos os pacientes sejam atendidos e não precisem esperar dentro do ônibus o dia todo. Teremos um quarto para descansar, um redário, uma brinquedoteca, uma sala, um refeitório e uma palavra de conforto, sempre. Deus vai nos ajudar com saúde para corrermos atrás desse sonho”.

A resiliência de Annelise não deixou de ser testada após a morte da irmã gêmea. Cristiane faleceu no dia 26 de junho de 2018 e, quase três anos mais tarde, em 21 de junho de 2021, ela perdeu o irmão mais velho, Fernando, atropelado em uma rodovia.

“Passaram-se três anos e tive outra perda trágica. Perdi meu irmão amado, meu amigo, meu conselheiro. Meu irmão era mais velho, era atleta e estava na rodovia quando foi atropelado. Ele amava esporte e sempre andava de bicicleta no período da manhã, mas nesse dia ele resolveu ir ao final do dia, com um amigo. Foi bem no momento mais difícil da Covid-19, que ele contraiu, curou-se, mas não resistiu aos ferimentos do acidente. Lutou pela vida durante 70 dias. Não foi nada fácil, mas sei que eles estão cuidando de nós e nos fortalecendo. Minha borboleta e o meu beija-flor estarão sempre comigo, até o infinito”.

Meditando sobre as perdas que teve e as dores que suportou, Annelise olha para o futuro com a certeza de que vai carregar para sempre junto dela o legado e o amor dos irmãos, que são sua força motriz.

“Honrarei tudo o que eles deixaram, porque eles continuam maravilhosos na minha vida e foram maravilhosos na minha história. O projeto Lenços de Luz carrega esse amor e essa gratidão que sinto pelos meus irmãos. Isso me faz seguir adiante e levar, a cada lenço que entrego para um paciente oncológico, uma palavra de esperança, de fé e de amor. Esta é um pouco da minha história, que se funde com a do projeto. Este está longe de ter um fim, muito menos de ser triste, pois ele pode ter nascido na dor, mas se fortaleceu na fé de que sempre podemos ser solidários, levando luz à vida das pessoas que enfrentam a batalha do câncer e conforto durante os momentos turvos de suas vidas”.

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