Especialistas indicam como prevenir e agir em casos de emergência
Compartilhe:

Por Cidiana Pellegrin

Basta um pequeno descuido para o susto acontecer. Um pedaço de alimento, uma bolinha ou até o leite materno podem causar engasgo em bebês e crianças pequenas — um dos acidentes domésticos mais comuns na infância. Saber reconhecer os sinais e agir rapidamente pode salvar vidas.

De acordo com a pediatra Louise Zangari, o engasgo verdadeiro ocorre quando há bloqueio total das vias aéreas, impedindo a respiração. “Nessas situações, a criança não consegue tossir, chorar nem emitir sons, e a pele pode ficar arroxeada. É diferente do reflexo de gag, que é apenas um mecanismo de defesa do corpo e ainda permite respiração e barulho”, explica.

Segundo a médica, os alimentos mais perigosos são os duros, redondos ou pegajosos, como uvas inteiras, tomates-cereja, cenoura e maçã cruas, entre outros. “Esses alimentos devem ser sempre cortados em pedaços pequenos, no sentido do comprimento, e oferecidos com supervisão. Balas, marshmallows e manteiga de amendoim podem colar-se na garganta e causar obstrução. Também é importante manter objetos pequenos, como moedas e botões, fora do alcance das crianças”, orienta a especialista. As castanhas, amendoim e a pipoca também entram nessa lista por serem difíceis de mastigar.

A tenente Simone Oliveira, do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, revela que a corporação atende entre 2 e 4 ocorrências de engasgo infantil por mês no Estado. Em 2025, já foram 122 casos, sendo 42 com crianças de até 6 anos. “A maioria dos acidentes ocorre dentro de casa e poderia ser evitada com simples cuidados”, afirma.

Tanto a pediatra quanto a equipe dos Bombeiros são unânimes: prevenir é mais eficaz que socorrer. Entre as principais medidas estão: estão oferecer alimentos adequados à idade, sempre em pedaços pequenos, nunca alimentar a criança deitada, chorando ou brincando, e supervisionar todas as refeições, especialmente até os 4 anos. Também é importante evitar brinquedos pequenos ou com peças soltas e orientar todos os cuidadores e familiares sobre os riscos e sobre como agir em caso de emergência.

Quando o socorro é urgente

Os sinais de alerta que indicam engasgo grave são: dificuldade para respirar, ausência de som, chiado, coloração azulada da pele e o clássico gesto de levar as mãos ao pescoço. “Se esses sinais aparecerem, é preciso agir imediatamente, chamar o socorro e iniciar as manobras de desobstrução”, destaca Louise.

Pais, avós e cuidadores devem saber reconhecer os sinais e aprender as manobras de socorro corretas, pois com esse conhecimento é possível salvar vidas. “O Corpo de Bombeiros oferece cursos e vídeos educativos que podem ser decisivos em uma emergência”, destaca a tenente Simone. “Aprender primeiros socorros pode ser a diferença entre um susto e uma perda irreparável”, reforça a pediatra.

A Sociedade Brasileira de Pediatria não indica a manobra de Heimlich para bebês menores de 1 ano, pois o movimento pode deslocar o corpo estranho e causar obstrução completa. “A organização recomenda que nessa faixa etária se estimule a tosse e, caso necessário, se realize uma sequência de batidas nas costas e compressões torácicas, seguida de ressuscitação cardiopulmonar se o bebê perder a consciência”, explica Louise.

Orientação passo a passo

A tenente Simone explica que a primeira atitude diante de um engasgo é manter a calma e ligar para o 193, número do Corpo de Bombeiros. Enquanto a equipe se desloca, o atendente orienta o responsável sobre o que fazer.

Para bebês com menos de 1 ano, a sequência recomendada pela pediatra e pelo Corpo de Bombeiros é:

  • Colocar o bebê de bruços sobre o braço, com a cabeça mais baixa que o tronco; a mão deve segurar a face do bebê para permitir a abertura da via aérea
  • Aplicar 5 tapas nas costas, entre as escápulas, com a região do “calcanhar” da palma da mão;
  • Virar o bebê de barriga para cima e fazer 5 compressões torácicas com dois dedos, logo abaixo da linha dos mamilos;
  • Repetir os ciclos até o objeto ser expelido ou o bebê perder a consciência.

“Em caso de o bebe ficar inconsciente, pare as manobras manuais, inicie ressuscitação cardiopulmonar e continue até a chegada de equipe especializada do Corpo de Bombeiros Militar”, destaca Simone.

Em crianças maiores de 1 ano, o procedimento indicado é a manobra de Heimlich, feita com o socorrista posicionado atrás da vítima, aplicando compressões firmes no abdômen, entre o umbigo e o peito.

Após o susto, procure atendimento

Mesmo que a criança pareça bem, a recomendação é levá-la ao pronto-socorro após um episódio de engasgo. “Pode haver inflamação, fragmentos ou lesões que precisam ser avaliadas. A observação médica é fundamental para evitar complicações”, reforça Louise.

Prevenção em casa: dicas do Corpo de Bombeiros

  • Corte alimentos redondos (como uvas e tomates) em quatro partes no sentido do comprimento.
  • Não ofereça alimentos enquanto a criança estiver brincando ou deitada.
  • Mantenha moedas, botões e pilhas fora do alcance.
  • Ensine as crianças a mastigar devagar e sem falar com a boca cheia.
  • Oriente familiares e cuidadores sobre como agir.
  • Em caso de emergência, ligue 193 e siga as instruções do atendente.
Veja também: