“Eu tive câncer, mas o câncer não me teve”

Aos 26 anos, Maria Eduarda já enfrentou dois tipos de cânceres, venceu os dois e ouviu a melodia mais bonita da vida: o som do Sino da Cura
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Dificilmente, quem esteve no saguão de entrada do Hospital Cassems de Campo Grande, no início de fevereiro, saiu ileso à emoção. O motivo foi a alta de uma paciente mais que especial – a Maria Eduarda, ou simplesmente a Madu, como a chamam aqueles que aprenderam a admirar a sua força.
Aos 26 anos, ela atravessou o deserto de dois diagnósticos de câncer, para finalmente, ouvir a melodia mais bonita da vida: o som do Sino da Cura. Com uma fé inabalável e perseverança, Madu cativou e inspirou a equipe formada por médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem que a acompanharam durante seu tratamento contra o câncer na unidade hospitalar.
E naquele dia, a ‘rede de apoio’ formada por amigos, parentes e conhecidos, foram juntos celebrar a notícia que tanto aguardavam: a alta depois de 7 anos de tratamento. Marcando assim, o fim de um capítulo de quase uma década e o início de uma nova jornada.
Quando tudo começou…
O tratamento de Madu começou no início de novembro de 2019, quando Maria Eduarda, então com 19 anos, recebeu o primeiro diagnóstico: leucemia. Ela conta que o baque da notícia foi forte e mesmo sem saber como reagir ela manteve a fé nela e no seu futuro, que lhe deram a força necessária para começar a batalha contra a doença.
“Eu tinha a minha vida toda planejada e, querendo ou não, o diagnóstico foi um ponto e vírgula ali na minha história que eu não esperava. Mas, eu sabia que tinha uma vida inteira pela frente. Aquele era um momento apenas e eu me agarrei estupidamente, assim, na minha fé. Dei uma choradinha e segui em frente, porque eu sabia que o senhor tinha um futuro de esperança garantido para mim. E eu só precisava de coragem para passar por aquele momento e depois veria o resto da minha vida”, afirma.
E foi assim, com fé e confiança na cura que Maria Eduarda iniciou o tratamento na Rede Amo, serviço próprio de oncologia da Cassems. Em cinco anos, ela realizou sessões de quimioterapia, além de cirurgias e uma iodoterapia. Viveu um dia cada vez, os bons e os nem tão bons assim, ainda assim enfrentou tudo com clara ciência da sua situação e da intensidade de seu tratamento.
“Durante esses altos e baixos, eu também aprendi a ter mais consciência de mim e do processo que eu estava vivendo a ponto de enfrentar um problema de cada vez. Isso fez muita diferença na forma com que eu enfrentei os meus processos. É engraçado que quando algumas pessoas perguntam sobre o processo do meu tratamento, elas esperam que eu responda com um certo pesar, mas eu acho isso muito precioso quando eu olho para como foi esse processo”.
O médico hematologista que tratou Maria Eduarda, Luiz Henrique Mascarenhas, explica que um dos principais desafios para o tratamento de doenças neoplásicas são os casos de leucemia aguda, como o que afetou a Madu.
“Esses casos impactam muito o paciente, a família e, também, todos os agentes que circulam em torno – médicos, enfermeiros, técnicos e todo o apoio de saúde que nós temos dos profissionais da saúde. Especificamente no caso da Maria Eduarda, uma menina jovem, em plena flor da idade, se preparando para fazer vestibular, a descoberta da doença foi realmente muito impactante na vida dela. Mas, graças aos esforços de toda equipe médica que participou do acompanhamento e do tratamento dela, ela obteve sucesso”, lembra Mascarenhas.
Quando estava próxima da linha de chegada do primeiro tratamento, Madu entrou em uma curva e em 2024, sofreu outro baque ao ser diagnosticada com um novo câncer: o de tireoide. Obstinada, não deixou a bola cair e enfrentou tudo de novo, com a mesma coragem e fé.
“Eu confesso que quando chegou o segundo diagnóstico, minha primeira reação foi ‘é sério isso?’ Mas, no final das contas, eu respirei, chorei o necessário e me levantei de novo. A vida já tinha me ensinado que eu não controlo tudo, mas que eu posso controlar quem eu escolho ser em meio ao que está acontecendo. Eu tenho a percepção de que eu podia muito bem endurecer, desistir ou me perder, mas, de novo, eu escolhi confiar”.
E como da primeira vez, ela se agarrou a sua fé e seguiu o novo caminho e do processo retirou um aprendizado. “Quando você recebe um diagnóstico, não tem muito para onde você correr. Se você quer viver, você tem que passar por todos os processos e, quando você decide passar por todos os processos de cabeça erguida, você passa, você vence e você fica bem. Assim como eu fiquei”.

“Quero ser, na vida de alguém, aquilo que um dia foram para mim”

Além disso, o tratamento e atendimento recebido fez nascer uma certeza – a de que cursaria medicina para um dia, enquanto profissional, transmitir o mesmo cuidado que recebeu. “Sempre me lembro com muito carinho e gratidão dos profissionais que seguraram a minha mão durante esse tempo todo. Tenho a consciência de que um tratamento contra o câncer é algo muito pesado e, também, tenho a consciência de que os profissionais que estiveram comigo durante todo o meu tratamento fizeram o processo ser muito mais leve. Então, quando eu olho para trás, eu não consigo lembrar das coisas ruins que aconteceram, eu me lembro das coisas boas, porque foram elas que me marcaram de verdade, sabe?”, relembra.
Para ela, a humanização foi o diferencial do tratamento e contribuiu com o resultado positivo. “Digo e repito que eles não cuidaram da doença da paciente, eles cuidaram da Maria Eduarda. Fez toda a diferença durante o meu tratamento, e sou muito grata por isso. Foi nessa posição de paciente que esse senso de propósito tomou uma proporção maior dentro de mim. Então, eu faço medicina hoje, todas as decisões que eu tomo, a forma com que eu me posiciono como estudante e futura profissional é porque eu quero ser, na vida de alguém, aquilo que um dia foram para mim. Presença, um cuidado de excelência, segurança, mas, acima de tudo, humanidade, que foi o que eu recebi dentro do Hospital Cassems. Eu quero que, quando alguém estiver frágil, como eu estive, com medo, sem resposta, encontre em mim não só uma médica, não só um profissional, mas uma resposta”.
De acordo com hematologista, esse propósito que Maria Eduarda encontrou nos profissionais que a atenderam trouxe grande satisfação para a equipe. “Para nós que atuamos nessa área, ver isso é extremamente recompensador, porque mostra que o nosso trabalho, quando bem-feito e quando obtém o sucesso, pode trazer resultados importantes. Ela vai se tornar uma grande médica e, também, vai proporcionar um bom tratamento, uma boa acolhida e um bom acompanhamento dos seus pacientes. Desejo a ela toda a sorte do mundo, toda a felicidade do mundo e que ela seja uma excelente profissional”, celebra Mascarenhas.

Sorriso que contagia

Todos os profissionais que atenderam Madu no Hospital Cassems de Campo Grande, sem exceção, destacam o otimismo e a fé com a qual ela enfrentou o extenso tratamento. O que mais chamava atenção era o sorriso sempre estampado no rosto, que contagiava toda a equipe, como lembra o supervisor da Rede Amo, Gustavo Alves Ferreira.
“Ela deu entrada no hospital no final de 2019, praticamente uma adolescente, iniciando a juventude. Porém, a gente sentia a esperança que ela tinha, a coragem de querer realmente se curar da doença. O que mais marcava nela era o sorriso que ela vinha para fazer o seu tratamento. E a gente poder ter contribuído para que ela hoje possa ter tocado o Sino da Cura é muito gratificante”, afirma Ferreira.
No dia da alta médica, ao tocar o Sino da Cura, rodeada pela família e amigos, Maria Eduarda alternou o seu sorriso contagiante com lágrimas de agradecimento pelo momento tão especial e esperado.
“Esperei muito tempo por esse momento. Idealizava, olhava, tirava fotos todas as vezes que eu vinha. Eu tenho milhares de fotos desse sino no meu celular. Quando me perguntaram pela primeira vez porque eu queria tocar esse sino e eu disse que era por mim mesma. Mas então, coloquei minha cabeça no travesseiro e eu queria reformular essa frase. Estou tocando esse sino por mim e por quem sustentou a minha mão durante todo esse processo. Quando eu achei que eu não podia, minha melhor amiga, minha mãe, meus tios, meu pai. Eles estavam segurando a minha mão nesse processo. Minha mãe enxugou minhas lágrimas muitas vezes. Minha mãe repetiu várias vezes que ia passar, que ia dar certo, que tudo ia passar. E, hoje, eu toco esse sino para, de alguma forma, dizer para mim mesma e para todo mundo que tudo passa. Tudo passa e tudo fica bem no final das coisas. Esse é por mim e por todo mundo que segurou a minha mão durante esse processo. Eu acho que dá para pesquisar no dicionário o significado de ‘felicidade’. Talvez chegue perto do que eu estou sentindo”.
Carla Bernal, mãe da Madu, extremamente emocionada, celebra a alta da filha e agradece à Cassems o atendimento que a filha recebeu durante o tratamento. “Comemorar esse momento marcante na vida da Maria Eduarda é muito gratificante. Eu sempre falava para ela: ‘filha, parece que nós estamos em um hotel, a única coisa que difere é que você está fazendo medicação. Eu sou muito grata à Cassems e a todos os profissionais que cuidaram com muita excelência da Maria Eduarda”.
Quando estava em tratamento, Maria Eduarda precisou de muitas bolsas de sangue e isso mobilizou muita gente em prol de campanhas de doação de sangue. Agentes de praticamente todas as forças de segurança, Samu e Bombeiros se uniram à família para garantir que as doações atingissem o número necessário de bolsas. No momento da alta, toda essa rede de apoio fez um verdadeiro cordão de energia positiva para Madu.
“Eu precisei de muita doação de sangue quando estava internada e essas pessoas que estão aqui doaram sangue para mim. Eles foram muito importantes para eu estar aqui e tenho um pouco do sangue de cada um nas minhas veias. Se eles não tivessem tirado um tempo das suas vidas para fazer a doação, talvez eu nem estaria aqui”.
Ao sair do hospital, ladeada pela família e amigos, Maria Eduarda segurava um cartaz com os seguintes dizeres: ‘Eu tive câncer, mas o câncer não me teve’. Frase essa que resume a forma com a qual Madu enfrentou os dois cânceres.
“É muito mais do que um jargão bonito, a verdade é que isso foi uma decisão diária e eu estava extremamente consciente em mim, ainda que muitas vezes difícil. Era eu dizendo para mim mesmo, o tempo todo, que eu estava num processo duro, mas que eu não iria desaparecer dentro dele. A doença podia tocar o meu corpo, mas não ia tocar quem eu era, nem mudar quem eu era. Então, a verdade é que, de certa forma, o meu otimismo foi uma âncora para mim, E ele foi viabilizado pela minha fé, né? Porque eu sabia que, acontecesse o que acontecesse, ia estar dentro dos planos de Deus para mim. Então, eu passei por todos os processos sabendo que era o que precisava acontecer”.

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