“Eu vou contar essa história porque você vai me perguntar”.., adianta Clementina Loureiro, a Tina, colaboradora do Hospital Cassems de Campo Grande desde que a unidade entrou em funcionamento. Eu entrei na inauguração do Hospital, já vai fazer seis anos, sempre na nutrição, mas onde precisam de mim eu estou assim, com a fala ligeira, ela conta como começou a confeccionar fantasias para colegas que dão vida a personagens de livros, filmes e HQs e que vez ou outra aparecem durante o Plantão da Alegria, uma ação que contagia com cores e sorrisos os corredores do hospital. Tina explica que a ideia surgiu quando ela e alguns colegas de trabalho estavam reunidos na copa, na pausa do almoço, para fugir do frio.
Eu tenho aqui o meu canto (na copa e aqui a gente ficou sentado, pensando em criar alguma coisa para alegrar quem está internado há muito tempo). Eu falei: ”vamos fazer fantasias para a gente poder ajudar idoso, criança e poder levar alegria. E aí a gente juntou umas pessoas para animar, ajudar com a ideia, então criamos o nome Plantão da Alegria e eu fui estudando a fantasia”.
O primeiro Plantão da Alegria foi realizado um ano depois que a unidade hospitalar iniciou as atividades, em 2017, e naquele ano foram realizadas as festas de Dia dos Pais e Natal. Aliás, naquele mesmo ano, o Plantão da Alegria transbordou de amor e carinho, reunindo até os idosos do Recanto Feliz. Já em janeiro de 2018, o Plantão da Alegria foi retomado na celebração do Dia do Paciente, com os plantonistas levando sorrisos, atenção e carinho para quem estava internado no hospital. Em 2019, foram cinco ações, incluindo uma apresentação teatral.
AS FANTASIAS
Um importante elemento do Plantão da Alegria são as fantasias, afinal, são elas que dão forma aos personagens e trazem o colorido e o sorriso necessários para contagiar os pacientes internados que recebem as visitas dos plantonistas. E confeccionar fantasias é uma tarefa que Tina desempenha com facilidade, ciente de que não está apenas unindo tecidos, mas, sim, costurando para realizar sonhos dos colegas que queriam, mesmo que por algumas horas, se tornar seus personagens favoritos. “Então a gente juntou tudo, a vontade de fazer as pessoas internadas e nossos colegas sorrirem. Porque usar fantasia nem sempre é coisa de criança, pessoas mais velhas também querem se vestir como os personagens, mas tem vergonha, então a gente criou o Plantão da Alegria, para realizar sonhos”.
Tina conta que aprendeu a costurar na infância, ao observar a avo, e as primeiras peças que reproduziu foram roupas para bonecas e roupas de personagens de novelas. Eu não tenho curso nenhum, fiz minhas peças sozinha, cortava em um papel e lá para o pano. Fui costurando escondida da minha vó, porque ela costurava, mas nunca cheguei perto da máquina dela. Eu costurava na mão e adorava.
Com o passar dos anos, a costura manual deu lugar à costura mecânica, na máquina, e nem mesmo a falta do curso de costura atrapalhou a vontade de Tina de fazer a alegria de quem está internado e de quem usa a fantasia. Geralmente, cada peça de roupa fica pronta em até um dia, em um processo que envolve muita dedicação e estudo, para recriar com riqueza de detalhes cada fantasia.
COSTURANDO SONHOS
O universo de fantasias é variado e plural. Assim, de cabeça, eu não sei, mas temos mais ou menos 30 (peças), ressalta Tina. Entre as fantasias já confeccionadas estão as roupas da Emilia, a boneca falante e ilustre moradora do “Sítio do Picapau Amarelo, e até a de um dos famosos super-heróis das histórias em quadrinhos, o Super-Homem. Temos também de princesas, da Fiona, do Mario, do Super Mario Bros”, completa.
Perguntada se tem alguma fantasia favorita da Tina diz que sim. “Eu gosto das de princesa, do Toy Story, o meu netinho fala muito da Margarida e do Shrek, destaca. O dom para costurar é tanto, que Tina recria roupas de personagens desconhecidos para ela. “As vezes, a pessoa vem e fala que gosta do personagem mas eu nunca vi. E às vezes a fantasia não tem um preço acessível, dai eu es-tudo, busco na internet e vou tentando até fazer”.
Conhecedora de seu talento, ela desafia: ”Vamos supor que você me fala agora eu quero tal personagem, e eu não sei quem é, mas eu vou estudar. Não tem dificuldade nenhuma, eu estudo até conseguir, eu faço o desenho no papel, depois do papel eu vou no tecido, e assim vai nascendo. O resultado é uma onda de felicidade. Agrada quem esta vestindo, quem está vendo a fantasia e a Tina, que se dedica a produzi-la. E uma felicidade enorme. Só de ver a alegria da pessoa quando ela vem me falar: ‘muito obriga-da, você fez e ficou lindo’, eu já fico muito feliz”.
Segundo Tina, é difícil não se emocionar ao ver sorrisos. Tenho contato com todos os pacientes e mães de pacientes, eles ficam felizes, choram, nós já fizemos tantas coisas bonitas. Uma vez, fizemos uma bola com fotos e muitas pessoas escreveram mensagens, é muito bom quando as pessoas veem a gente realizando aquele sonho. Elas agradecem depois, é gratificante”.
A fama de Tina é conhecida no hospital. Das fantasias, ela já partiu para confeccionar um coração, que circulou pela unidade hospitalar, e até um boneco, que foi utilizado no dia de treinamento da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa).
Os pedidos, claro, não param de chegar. Toda vez que eu faço uma peça, eles mandam mensagens e vêm cinco ou seis pessoas atrás de mim querendo fantasia.
Entre 2020 e 2021, o Plantão da Alegria foi pausado, em razão da pandemia de Covid-19, mas a previsão é de que a ação retorne ainda em 2022. Motivo de alegria para Tina, que já tem um estoque de tecidos esperando para ser transformado em sonhos. Além de planos que incluem novas fantasias para serem produzidas. “Eu falei ‘eu estou muito triste hoje’, porque, com a pandemia, nosso Plantão da Alegria tinha parado, mas agora esta renascendo. Já os tecidos, eu vou usando os que tenho, e nesses cinco anos eu reuni muita coisa e eu vou separando e falando: ”isso aqui dá para uma personagem”, conta.
Na lista das fantasias que Tina tem vontade de confeccionar estão as da turma do “Chaves. “Da Chiquinha, da Dona Florinda, porque a gente é atrapalhada, e eu me encontro muito nesses personagens atrapalhados, brinca, escolhendo qual fantasia usaria.
Eles escolheram para mim a da Bruxa do 71, disseram que eu tenho jeito, mas a que eu escolheria é a da Velha Surda, que meu amigo Raul sempre falava que eu parecia com ela”, conta, entre risos.
Tina acrescenta ainda que tem entre os incentivadores o neto, que vê em primeira mão tudo o que a avó produz. Toda fantasia que eu faço eu me encontro nela, porque durante a confecção, quando eu estou cortando e costurando, eu visto para ver como ficou. Nessa hora, meu netinho Natan, que tem seis anos, fala: ‘linda, vovó, igualzinho’. E depois que eu vejo pronta eu penso: ‘minha nossa! Eu consegui fazer. Eu fico feliz”! arremata.


