Esta é uma narrativa de como o esporte é capaz de transformar vidas e garantir autonomia e bem-estar. A história em questão tem como personagem o paratleta Veltsin Jacques, que saiu do coração do Brasil, Mato Grosso do Sul e escreveu o seu nome na história do esporte nacional. Veltsin foi um dos 55 competidores cegos da delegação brasileira que seguiu para os Jogos Paralímpicos de Tóquio em 2021 e, na terra do sol nascente, conquistou a centésima medalha de ouro do Brasil em Paralimpíadas e o recorde mundial ao vencer os 1.500 metros (ml da classe T11 (de pessoas cegas] com o memorável tempo de 3min57s60.
Para Yeltsin, essa conquista representa a realização de um sonho. “É fruto de muito trabalho, são 14 anos de trabalho diário, faça chuva, faça sol, passando todas as dificuldades que nós passamos na iniciação esportiva e mesmo assim a gente se motivava, acordava cedo, falava vamos treinar, vamos trabalhar, vamos vencer, vamos superar a cada dia, e a gente vai conseguir chegar. E a gente conseguiu realizar esse sonho, eu fiz a parte de correr, mas por trás de mim tem muita gente eficiente” afirma.
Ele foi o primeiro a abrir a contagem de medalhas de ouro conquistadas para o Brasil no Japão. Antes mesmo de pisar na pista de corrida em Tóquio. Veltsin Jacques ia era promessa de medalha. Isso porque já havia marcado presença no lugar mais alto do pódio nos Jogos Para-pan-Americanos de Lima 2019, com vitórias nas classes T12 e TI3, em que conquistou ouro nos 1500 m; nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto 2015, com o ouro nos 1500 m e nos 5.000 m e em Paris, no Mundial de 2013, quando ficou com a medalha de prata nos 1.500 m e bronze nos 800 m.
Como toda boa história, esta também é de superação, afinal, Veltsin foi diagnosticado na infância com amaurose congênita de Leber (LCA), uma doença degenerativa hereditária da retina, caracterizada por grave perda de visão, e desde então foi incentivado pela mãe a conhecer e praticar diversas modalidades esportivas. A minha mãe viu no esporte a oportunidade de me transformar, de me dar autonomia, de transformar a minha vida, e ela sempre me proporcionou oportunidades de experimentar vários tipos de esportes, e eu fui gostando, me apaixonando, o esporte me fez ser esse ser humana que eu sou hoje’ afirma.
Houve também uma reviravolta importante nesta história, já que por pouco Veltsin não se dedica a outra modalidade, no caso, o judo. E quem relembra essa mudança é o próprio atleta. “Eu, por acaso, ajudando um amigo me deparei com o atletismo, a corrida de rua, e ao mesmo tempo eu praticava judô. Fui conhecendo a corrida e gostando cada vez mais, me apaixonando cada vez mais por ela. Era um esporte que eu conseguia treinar mais, eu sempre fui muito dedicado, e eu conseguia treinar sozinho, então foi uma obra do destino mesmo, o destino colocou a corrida ali nos meus 16 anos para que eu chegasse a conquistar a 100° medalha olímpica do atletismo brasileiro conta.
Yeltsin ressalta ainda que o seu aprendizado com a prática de judô, aliado ao atletismo, resultou no que ele acredita ser o seu diferencial nas pistas. Aprendi a ter disciplina, perseverança e respeito, ferramentas que o judô ensina muito, além da ética no trabalho, então, toda a minha base fundamental, a minha preparação mental e psicológica é muito forte” ressalta. E com isso o atleta obteve o equilíbrio perfeito para se destacar nas pistas. Eu já realizei tudo no esporte que um atleta poderia conquistar, baixei recorde mundial, conquistei a 1009 medalha de ouro ganhei 1500 m, ganhei 5000 m ganhei Parapan, sou medalhista em mundial, fui líder no ranking mundial na maratona, ganhei praticamente todas as provas desde provas de rua até provas de média expressão a nível nacional, fui campeão nacional incontáveis vezes e acho que desde 2009 estou invicto. Fui me aventurar na maratona e sou o melhor deficiente visual até hoje nela, resume.
TREINOS
Para ser multicampeão e recordista nas provas de atletismo, a rotina de treinos de Yeltsin é puxada e se manteve mesmo durante o período mais intenso da pandemia de Covid-19. “Eu sou o único que treinei e me preparei em Mato Grosso do Sul, e eu acredito que a gente fez um trabalho diferenciado. A gente conseguiu, com os cuidados necessários, abrir as pistas e se manter treinando o fato de [Campo Grande] ser uma cidade me-nor, mais tranquila, em que todo mundo conhece todo mundo, ajudou e eu tive muito apoio durante a pandemia, então, a gente estava muito bem treinado, muito forte’, destaca.
A decisão foi um diferencial, já que o atleta fundista conseguiu impor o ritmo e a intensidade necessária para liderar as provas das quais participou em Tóquio. A sensação que eu tinha era de que eu estava no Parque Ayrton Senna fazendo o meu treino, fazendo o que eu fazia todos os dias, que era o treinamento duro. E eu ia entregar o que eu fazia na pista. A gente sabia que os outros atletas estavam bem, então a gente fez o que eu fazia, que era ser bom o suficiente para ganhar”.
Yeltsin conta ainda que teve um apoio importante da esposa e atleta amadora Janayna Yankha para não perder o foco e o ritmo durante o período de distanciamento social. Eu e a minha esposa usamos inúmeras competições virtuais, desafios virtuais para poder competir mesmo que fosse virtualmente, mas eu estava competindo. Tudo que era desafio não valia nada, então isso foi fundamental para a gente chegar bem. Eu não parei, tive força e disciplina, conta.
Aliás, Janayna Yankha teve uma participação especial na jornada do atleta. Foi com o apoio dela que Veltsin encontrou uma forma de manter o ritmo “Eu tenho uma pessoa espetacular que hoje faz parte da nossa equipe, que é a minha esposa. E a gente conseguiu uma forma de ela me guiar de bicicleta e Campo Grande é a única cidade no Brasil em que a gente consegue usar a bicicleta na pista de atletismo.
Na verdade, na Europa, eles usam para fazer pace, o ritmo, para os atletas convencionais, e a gente usa como guia, então ela prende a cordinha no cotovelo e a gente faz a corrida. Isso faz com que eu não me torne totalmente dependente dos guias”, conta.
O apoio foi importante para auxiliar o atleta na transição das classes T12 e TI3 (para atletas de baixa visão) para a T11 (para atletas cegos). “Essa transição foi bastante difícil. Na minha classe antiga, eu poderia ou não usar um guia, era opcional, hoje já se tornou obrigatório, até mesmo pela perda acentuada de visão que eu tive.
Hoje, sou totalmente dependente dos quais para tudo, então atualmente eu estou com uma equipe maravilhosa, os meninos são fantásticos, fazem tudo ali, somos unidos e eles sofrem muito para correr comigo, e isso é uma limitação que a gente tem como equipe, porque é a dificuldade do treinamento do dia a dia e o meu treinamento é muito intenso, então para eles é muito desgastante.
Atualmente, Veltsin conta ainda com o apoio de outros nomes importantes, que fizeram história nas pistas. “São alguns dos melhores atletas do Brasil. o Guilherme já foi campeão sul-americano juvenil; o Ismael foi atleta olímpico, esteve nas Olimpíadas do Rio em 2016, mas, mesmo assim, eles têm muita dificuldade para correr comigo, então essa transição está sendo bem difícil, porque eu me torno totalmente dependente deles para treinar.
NOVOS DESAFIOS
Após vencer a prova dos 1.500 m da classe T11 (para atletas cegos), Veltsin concedeu uma entrevista para o podcast Rumo ao Pódio, que acompanha e analisa tudo o que acontece no mundo olímpico, e deixou claro que tem fome de vitória. “Aqui é Brasil, e vamos que vamos, vem mais recorde por ai”, disse o atleta.
Para a Viver Cassems ele explica que depois da prova precisou “recalcular a rota e definir os próximos passos no atletismo. Fui conversar comigo mesmo e pensei ‘e agora, o que eu vou fazer?” Então eu decidi focar, trabalhar e, por que não, em vez de duas, trazer três medalhas em Paris? Esta é a minha nova meta, três medalhas, duas de ouro e pelo menos uma medalha em uma prova paralela, talvez de prata ou de bronze, promete.
Ele menciona ainda a longa jornada que terá para cumprir nos próximos anos. “Hoje, o meu foco é o Campeonato Mundial em Paris, os Jogos Para-pan-Americanos de Santiago, o Campeonato Mundial no Japão em 2024 e os Jogos Paralímpicos de Verão de 2024, em Paris. O ano passado foi um ano tranquilo, já 2023 vai ser intenso e eu não vou ter descanso não vou ter praticamente nenhum dia de folga, destaca Veltsin.
Ele ressalta também os seus planos fora das pistas já que está terminando a sua formação em Educação Física o que deixa evidente mais uma intervenção do destino na jornada do atleta. “Estou cursando Educação Física, antes cursei sete semestres de Direito mas tranquei. Tive que ir para São Paulo treinar ai acabou surgindo essa a oportunidade no Comité Paralímpico de cursar Educação Física e eu abracei porque sou apaixonado por esportes, sempre fui apaixonado por esportes, eu amo corrida, eu já passava algumas dicas para atletas e corredores então eles começaram a ter um bom desempenho e eu pensei preciso ter uma formação, mas são projetos futuras, para 2028.
E eu ainda quero terminar a minha faculdade de Direito faltam três semestres” diz. Veltsin reconhece a importância e a força que o
esporte tem para mudar trajetórias, sendo assim, um de seus alanos é um dia poder desenvolver um trabalho social em que ele possa incentivar a prática esportiva entre crianças e adolescentes e oferecer treinamento. A gente vê muito a juventude perdida, por falta de conhecimento apoio suporte e como hoje eu me tornei referência eu quero continuar trabalhando cada vez mais para mostrar para a juventude as oportunidades que o esporte dá Hoje em dia eu ando na rua e as pessoas me reconhecem como atleta sabem do meu trabalho então eu quero cada vez mais seguir como referência Principalmente para as crianças que as vezes não têm perspectivas de futuro então quero cada vez mais servir como referência de que é possível mudar a sua trajetória por meio do esporte.
Sobre ser destaque na seção Orgulho Cassems desta edição, Meltsin diz ” meu pai é funcionário público e a Cassems me abraçou também para que eu pudesse manter essa minha carreira esportiva me manter como atleta. Hoje temos total apoio e, por eu ser um dos melhores atletas, a gente faz o impossível para levar a nome de Mato Grasso do Sul para fora”, finaliza.


